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"O DUPLO RIMBAUD"
(Com um Preâmbulo de Benjamin Fondane)
de Victor Segalen
Tradução e apresentação de Aníbal Fernandes
1ª Edição de 2022
SISTEMA SOLAR
144 Páginas
Benjamin Fondane: «O seu génio, como se tivesse pressa de se soltar, sobrevoa a idade, o tempo, a falta de experiência e — amadurecido não sei à luz de que sol de além-túmulo — explode e derrama-se.»
Em 15 de Abril de 1906 surgiu na revista Mercure de France o seu texto «O Duplo Rimbaud». Em cada um de nós, dirá Segalen, e para cada uma das nossas formas de pensar, de querer e sentir, existe um irredutível e não utilizável covil que não podemos, com complacência ou à força, com ódio ou amor, entreabrir aos outros. Estaremos perante um labirinto onde os leitores não encontram nenhuma saída? Segalen faz-nos crer que Rimbaud fala sempre de si próprio, com uma chave que só ele sabe utilizar; que os seus poemas são imaginadas memórias das coisas e dos dias da sua infância, e só ele os compreende na sua integralidade. Depois desta análise passa ao «segundo» Rimbaud, o de uma «curiosa e intensa fobia»; o que tem «horror à poesia», di-lo a sua irmã categórica e, por decisão, detentora de uma única e irrecusável verdade.
Aníbal Fernandes
Rimbaud foi outra coisa além de um cometa e mais do que um «assinalável transeunte». O seu génio, como se tivesse pressa de se soltar, sobrevoa a idade, o tempo, a falta de experiência e — amadurecido não sei à luz de que sol de além-túmulo - explode e derrama-se. O que espanta na sua obra não são tanto as virtudes do escritor, ainda assim fulgurantes, mas a espessura da página, a densidade do vivido, as riquezas do subsolo. O poeta desdobra-se, pluraliza-se; faz sobre todas as coisas «o salto do animal feroz». Estou por uma vez perfeitamente de acordo com a sua irmã Isabelle, ao descobrir sob a multiplicidade das personagens dos seus poemas o único rosto do Jean-Arthur e do escritor.
Benjamin Fondane
---
Victor Segalen 1878 a 1919
Literariamente marginalizado em vida, Victor Segalen tem agora uma boa reputação póstuma com direito ao inquérito que apenas consegue dar realce, numa biografia neutra, à mãe autoritária, à miopia forte e à morte singular. Mal damos por ele nas suas viagens de fim de mundo, vinte e cinco anos depois de nascido em Brest, 1878, quando seis planetas em signos de terra lhe concertam no céu astrológico um «horror ao mar» que passa a ironia maior na sua carreira da Marinha. E sendo ironia, por certo vai também ser privilégio do médico de bordo todo literato e entregue aos seus livros do Deferente (lembremos aqui Os Imemoriais sobre os Maoris; os poemas chineses de Stèles; os poemas de Thibet; o romance — à falta de melhor palavra Equipée…), ou seja, entregue aos seus livros de homem das lonjuras que vê o mundo e diz sempre por escrito as suas visões assombradas quase sempre por um «Real-Limite» a todo o passo tocado pela fluidez do Imaginário. Subitamente esvaído, Victor Segalen regressa à Europa: ainda vai ser amigo de Gourmont, Debussy e Huysmans antes de preparar a morte prematura, doente não se sabe nunca de quê. «Fui cobardemente traído pelo meu corpo!» - queixume numa carta dos últimos dias a Jean Lartigue — «De há muito este corpo me incomodava mas lá ia obedecendo, razão de eu ter podido arrastá-lo a corrupios vários que não eram, na aparência, feitos para ele Sífilis: zero; tuberculose: zero; anemia: zero; paludismo: zero. Não tenho nenhuma doença conhecida, apanhada, verificável, e assim mesmo tudo é como andar gravemente afectado. Já não me peso; não quero saber de remédios; só vejo, muito simplesmente, a vida afastar-se de mim.» Solitário, em Maio de 1919 hospeda-se num albergue da Finisterra, na floresta de Huelgoat que é centro mítico do Ciclo do Rei Artur, e manhã mal nascida sai de aparente passeio para morrer debaixo de uma árvore com o Hamlet aberto numa cena do III Acto.
Aníbal Fernandes, na introdução de A Cidade Proibida
NOVO - PORTES GRÁTIS
(Com um Preâmbulo de Benjamin Fondane)
de Victor Segalen
Tradução e apresentação de Aníbal Fernandes
1ª Edição de 2022
SISTEMA SOLAR
144 Páginas
Benjamin Fondane: «O seu génio, como se tivesse pressa de se soltar, sobrevoa a idade, o tempo, a falta de experiência e — amadurecido não sei à luz de que sol de além-túmulo — explode e derrama-se.»
Em 15 de Abril de 1906 surgiu na revista Mercure de France o seu texto «O Duplo Rimbaud». Em cada um de nós, dirá Segalen, e para cada uma das nossas formas de pensar, de querer e sentir, existe um irredutível e não utilizável covil que não podemos, com complacência ou à força, com ódio ou amor, entreabrir aos outros. Estaremos perante um labirinto onde os leitores não encontram nenhuma saída? Segalen faz-nos crer que Rimbaud fala sempre de si próprio, com uma chave que só ele sabe utilizar; que os seus poemas são imaginadas memórias das coisas e dos dias da sua infância, e só ele os compreende na sua integralidade. Depois desta análise passa ao «segundo» Rimbaud, o de uma «curiosa e intensa fobia»; o que tem «horror à poesia», di-lo a sua irmã categórica e, por decisão, detentora de uma única e irrecusável verdade.
Aníbal Fernandes
Rimbaud foi outra coisa além de um cometa e mais do que um «assinalável transeunte». O seu génio, como se tivesse pressa de se soltar, sobrevoa a idade, o tempo, a falta de experiência e — amadurecido não sei à luz de que sol de além-túmulo - explode e derrama-se. O que espanta na sua obra não são tanto as virtudes do escritor, ainda assim fulgurantes, mas a espessura da página, a densidade do vivido, as riquezas do subsolo. O poeta desdobra-se, pluraliza-se; faz sobre todas as coisas «o salto do animal feroz». Estou por uma vez perfeitamente de acordo com a sua irmã Isabelle, ao descobrir sob a multiplicidade das personagens dos seus poemas o único rosto do Jean-Arthur e do escritor.
Benjamin Fondane
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Victor Segalen 1878 a 1919
Literariamente marginalizado em vida, Victor Segalen tem agora uma boa reputação póstuma com direito ao inquérito que apenas consegue dar realce, numa biografia neutra, à mãe autoritária, à miopia forte e à morte singular. Mal damos por ele nas suas viagens de fim de mundo, vinte e cinco anos depois de nascido em Brest, 1878, quando seis planetas em signos de terra lhe concertam no céu astrológico um «horror ao mar» que passa a ironia maior na sua carreira da Marinha. E sendo ironia, por certo vai também ser privilégio do médico de bordo todo literato e entregue aos seus livros do Deferente (lembremos aqui Os Imemoriais sobre os Maoris; os poemas chineses de Stèles; os poemas de Thibet; o romance — à falta de melhor palavra Equipée…), ou seja, entregue aos seus livros de homem das lonjuras que vê o mundo e diz sempre por escrito as suas visões assombradas quase sempre por um «Real-Limite» a todo o passo tocado pela fluidez do Imaginário. Subitamente esvaído, Victor Segalen regressa à Europa: ainda vai ser amigo de Gourmont, Debussy e Huysmans antes de preparar a morte prematura, doente não se sabe nunca de quê. «Fui cobardemente traído pelo meu corpo!» - queixume numa carta dos últimos dias a Jean Lartigue — «De há muito este corpo me incomodava mas lá ia obedecendo, razão de eu ter podido arrastá-lo a corrupios vários que não eram, na aparência, feitos para ele Sífilis: zero; tuberculose: zero; anemia: zero; paludismo: zero. Não tenho nenhuma doença conhecida, apanhada, verificável, e assim mesmo tudo é como andar gravemente afectado. Já não me peso; não quero saber de remédios; só vejo, muito simplesmente, a vida afastar-se de mim.» Solitário, em Maio de 1919 hospeda-se num albergue da Finisterra, na floresta de Huelgoat que é centro mítico do Ciclo do Rei Artur, e manhã mal nascida sai de aparente passeio para morrer debaixo de uma árvore com o Hamlet aberto numa cena do III Acto.
Aníbal Fernandes, na introdução de A Cidade Proibida
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Publicado 29 de junho de 2026
"O DUPLO RIMBAUD" de Victor Segalen - 1ª Edição de 2022
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