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Tipo: Poesia
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Descrição
"POESIA"
de António Maria Lisboa
Edição de 1995
ASSÍRIO & ALVIM
Coleção Documenta Poética Nº 5
242 Páginas
«António Maria Lisboa nasce em Lisboa e a Lisboa vem a morrer depois de duas estadias em Paris, em 1949 e 1951, onde em vão procurará fixar-se, sem recursos próprios e carente de qualquer auxílio. Sobretudo, a segunda estadia ser-lhe-á fatal, pois parte de Portugal já doente e regressa com um pulmão destruído e o outro seriamente afectado.
Em qualquer país e em qualquer época a sua procura incessante "de um impossível realizado" "no acto mágico que somos", o "exceder-se de tal forma que não seja possível conceptuar-se", a recusa, quasi, ou como, de cátaro, em ingerir o alimento geral, seria propósito perigoso e difícil de manter. No entanto, o tempo vivido sob a Ditadura de Salazar, sob a qual "o ar era um vómito e nós seres abjectos" agravaria temivelmente os custos do seu propósito.
Desaparecido em plena juventude, António Maria Lisboa deixou um obra escassa mas nem por isso menos fulgurante. Preocupado com uma verdadeira aproximação às culturas exteriores à tão celebrada civilização ocidental, há na sua poesia uma busca incessante de um futuro tão antigo como o passado. Pode, e decerto deve, ser considerado o mais importante poeta surrealista português, pela densidade da sua afirmação e na "direcção desconhecida" para que aponta.»
Mário Cesariny
*
PROJECTO DE SUCESSÃO
Para o Mário Henrique
Continuar aos saltos até ultrapassar a Lua
continuar deitado até se destruir a cama
permanecer de pé até a polícia vir
permanecer sentado até que o pai morra
Arrancar os cabelos e não morrer numa rua solitária
amar continuamente a posição vertical
e continuamente fazer ângulos rectos
Gritar da janela até que a vizinha ponha as mamas de fora
por-se nu em casa até a escultora dar o sexo
fazer gestos no café até espantar a clientela
pregar sustos nas esquinas até que uma velhinha caia
contar histórias obscenas uma noite em família
narrar um crime perfeito a um adolescente loiro
beber um copo de leite e misturar-lhe nitro-glicerina
deixar fumar um cigarro só até meio
Abrirem-se covas e esquecerem-se os dias
beber-se por um copo de oiro e sonharem-se índias.
---
António Maria Lisboa nasceu em Lisboa a 1 de agosto de 1928. É um dos autores principais do texto coletivo A Afixação Proibida, e a sua "conferência-manifesto" Erro Próprio é consensualmente reconhecida como um dos mais decisivos textos do movimento Surrealista. Entre viagens, escreveu muitos poemas e preparou alguns livros, como Ossóptico (1952) ou Isso Ontem Único (1953). Em 1953, não resistiu à tuberculose que o acometia e morreu, em Lisboa, aos vinte e cinco anos.
ESGOTADO NESTA EDIÇÃO
COMO NOVO - PORTES GRÁTIS
de António Maria Lisboa
Edição de 1995
ASSÍRIO & ALVIM
Coleção Documenta Poética Nº 5
242 Páginas
«António Maria Lisboa nasce em Lisboa e a Lisboa vem a morrer depois de duas estadias em Paris, em 1949 e 1951, onde em vão procurará fixar-se, sem recursos próprios e carente de qualquer auxílio. Sobretudo, a segunda estadia ser-lhe-á fatal, pois parte de Portugal já doente e regressa com um pulmão destruído e o outro seriamente afectado.
Em qualquer país e em qualquer época a sua procura incessante "de um impossível realizado" "no acto mágico que somos", o "exceder-se de tal forma que não seja possível conceptuar-se", a recusa, quasi, ou como, de cátaro, em ingerir o alimento geral, seria propósito perigoso e difícil de manter. No entanto, o tempo vivido sob a Ditadura de Salazar, sob a qual "o ar era um vómito e nós seres abjectos" agravaria temivelmente os custos do seu propósito.
Desaparecido em plena juventude, António Maria Lisboa deixou um obra escassa mas nem por isso menos fulgurante. Preocupado com uma verdadeira aproximação às culturas exteriores à tão celebrada civilização ocidental, há na sua poesia uma busca incessante de um futuro tão antigo como o passado. Pode, e decerto deve, ser considerado o mais importante poeta surrealista português, pela densidade da sua afirmação e na "direcção desconhecida" para que aponta.»
Mário Cesariny
*
PROJECTO DE SUCESSÃO
Para o Mário Henrique
Continuar aos saltos até ultrapassar a Lua
continuar deitado até se destruir a cama
permanecer de pé até a polícia vir
permanecer sentado até que o pai morra
Arrancar os cabelos e não morrer numa rua solitária
amar continuamente a posição vertical
e continuamente fazer ângulos rectos
Gritar da janela até que a vizinha ponha as mamas de fora
por-se nu em casa até a escultora dar o sexo
fazer gestos no café até espantar a clientela
pregar sustos nas esquinas até que uma velhinha caia
contar histórias obscenas uma noite em família
narrar um crime perfeito a um adolescente loiro
beber um copo de leite e misturar-lhe nitro-glicerina
deixar fumar um cigarro só até meio
Abrirem-se covas e esquecerem-se os dias
beber-se por um copo de oiro e sonharem-se índias.
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António Maria Lisboa nasceu em Lisboa a 1 de agosto de 1928. É um dos autores principais do texto coletivo A Afixação Proibida, e a sua "conferência-manifesto" Erro Próprio é consensualmente reconhecida como um dos mais decisivos textos do movimento Surrealista. Entre viagens, escreveu muitos poemas e preparou alguns livros, como Ossóptico (1952) ou Isso Ontem Único (1953). Em 1953, não resistiu à tuberculose que o acometia e morreu, em Lisboa, aos vinte e cinco anos.
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Publicado 03 de julho de 2026
"POESIA" de António Maria Lisboa - Edição de 1995
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